quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Grande Familia Pato (5): Pato Donald

Por Rivaldo Ribeiro & E. Rodrigues  :: postado originalmente em 18/jun/09 ::

REVISADO E EXPANDIDO. Em 1932 (dois anos antes, portanto, de A Galinha Sábia, a estreia oficial de Donald), o livro ilustrado Mickey Mouse Annual #3 trazia um protótipo ilustrado do pato, ali já identificado como Donald Duck — mesmo nome, aliás, que um ano antes batizara um dos personagens do livro The Adventures of Mickey Mouse (ilustrações abaixo). Casos semelhantes, de divergência entre surgimento real e oficial, não são incomuns na Disney. Margarida e o próprio Mickey podem ser citados como exemplos disso. 


Donald: o herdeiro do Tio Patinhas


Conhecido por seu temperamento explosivo, o Pato Donald é uma das mais famosas e amadas personalidades do mundo. Normalmente feliz, mas esquentado, o pato em traje de marinheiro teve seus filmes vistos em 76 países, suas tiras cômicas diárias são acompanhadas em 100 jornais estrangeiros, seus gibis são publicados em 47 nações, e famílias o assistem pela televisão em 29 países, segundo registros [de 2009] da própria Disney.


AS ANIMAÇÕES


O astro mostrou-se oficialmente ao mundo em 9 de junho de 1934, quando estreou nos cinemas o curta The Wise Little Hen, da série Silly Symphonies (imagem acima). Ainda que um mero personagem coadjuvante, Donald roubou a cena, como um pato preguiçoso e ganancioso. Faltava-lhe aquela que seria sua característica mais famosa: o temperamento tempestuoso.

Esse novo atributo foi claramente notado em seu próximo filme, Orphan's Benefit (1934). Nesse curta-metragem, Donald recitava Mary Had a Little Lamb, mas era constantemente interrompido pela plateia impaciente.

O pavio curto e o desejo inocente de vingança fez dele um tipo facilmente reconhecível pelo público, levando a plateia ao delírio. As pessoas aliviavam suas próprias frustrações através dele, especialmente quando ele criava o seu próprio problema.



Donald tornou-se rapidamente uma co-estrela nos curtas animados de Mickey, às vezes formando um trio cômico com Pateta. Mas sua popularidade começou a eclipsar a de Mickey, e então ele começou a estrelar suas animações próprias, começando por Don Donald (1937 — imagem acima) — que, por sinal, marca a estreia de Margarida.




No ano seguinte, Huguinho, Zezinho e Luisinho — que haviam estreado nos quadrinhos meses antes — agravariam o temperamento de Donald com suas traquinagens (em Donald's Nephews — imagem acima).



Foi em Donald Gets Drafted (1942), que ficamos sabendo, logo em sua primeira cena, que o nome do meio do pato era "Fauntleroy". Assim aparecia em seu requerimento de alistamento militar ("nº 13", repare na imagem acima). O curta figura no volume 2 da Cronologia do Donald e também no DVD dedicado aos filmes produzidos por ocasião da 2ª Guerra Mundial, On The Front Lines, ambos da coleção americana Disney Treasures — sobre a qual falamos aqui (só o primeiro volume de Donald, contudo, foi lançado no Brasil até hoje).

Uma das provas da popularidade do pato está nos 128 curtas de animação que estrelou — mais do que qualquer outro astro Disney — além de participações em outros.

Donald também impulsionou a bilheteria de filmes de longa-metragem, como O Dragão Relutante (1941), Alô Amigos (1943, que introduziu Zé Carioca e Panchito), Você Já Foi à Bahia? (1945) e Alegre e Folgazão (muitas décadas depois, renomeado aqui para Como É Bom se Divertir, 1947 — no notável segmento Mickey e o Pé de Feijão).

Em Fantasia 2000 (comercialmente lançado em 2000), protagonizou com pompa e circunstância o segmento do filme que se pretendia equiparável a O Aprendiz de Feiticeiro de Mickey, do filme original (de 1940).



Já em Uma Cilada para Roger Rabbit (1988 — imagem acima), o duelo ao piano entre Donald e Patolino, da Warner, ficou como uma das cenas mais memoráveis do filme — na adaptação para os quadrinhos, por questões de direitos autorais, toda essa sequência foi substituída por um único quadro, sem os patos, apenas com um polvo maluco tocando os dois pianos ao mesmo tempo.



Um dos vários Oscars conquistados por Disney veio por Der Fuehrer's Face (imagem acima), curta estrelado por Donald em 1943 — período em que os estúdios Disney produziram vários outros curtas com temas relacionados à 2ª Guerra Mundial.




Tampouco podemos deixar de citar aqui o curta Donald in Mathmagic Land (Donald no País da Matemágica, 1959 — imagem acima), um dos mais populares filmes educativos já produzidos. Dois anos após sua estreia, ganhou introdução do Prof. Ludovico para o episódio inaugural do televisivo Disneylândia, o Mundo Maravilhoso de Cores (que igualmente marcou a estreia do ilustre professor).









PRÉ HISTÓRIA

Donald Fauntleroy Duck estreou nas HQs com a quadrinização do curtametragem The Wise Little Hen, em 1934.




Mas é sabido que em 1931 — três anos antes de seu nascimento oficial, portanto — o nome Donald Duck já havia batizado um personagem do livrinho The Adventures of Mickey Mouse, publicado por David McKay (imagens acima e abaixo).




 

Em 1932, saiu em Mickey Mouse Annual #3 uma adaptação desse livrinho, então em verso e ilustrada à moda das (então) futuras Good Housekeeping. E lá estava Donald Duck. Bem diferente daquele que surgiria no curta-metragem, dois anos depois. Acima, capa da publicação; abaixo, a página onde aparece o protótipo de Donald, de cabeça preta e calção azul



NOS QUADRINHOS

Todo mundo sabe um pouco da vida do Donald: é sobrinho do Tio Patinhas, neto da Vovó Donalda (que lhe deu a roupinha de marinheiro), namora a Margarida e cria os três sobrinhos gêmeos, Huguinho, Zezinho e Luisinho, filhos de sua irmã (gêmea, também) Dumbela.




Não tem inimigos declarados, mas há duas pedras incômodas em seu sapato — opa! ele não usa sapatos. Seja como for, as pragas são seu primo Gastão, sempre usando sua afamada sorte para passá-lo para trás, inclusive para tentar roubar-lhe a namorada, e Silva, seu vizinho, um verdadeiro chato de galochas que arruma confusão por qualquer coisa — e que curiosamente se parece com um monte de gente que conhecemos.

Aliás, por falar no Silva, os quadrinistas brasileiros não pouparam o pobre pato. Na história O Álbum de Família, publicada em ALMANAQUE DISNEY #106 (1980), é mostrado que eles se conheceram ainda no berçário! — numa HQ escrita por Gérson Teixeira e desenhada por Irineu Rodrigues e Verci de Mello.



Donald nasceu, segundo HQs, cartoons, e pelo menos uma enciclopédia oficial, no dia 13 de março. Uma sexta-feira. A data é tão difundida em sua vida que até seu adorável carrinho a registra, em sua própria placa. Está lá: 313 (ou 3-13; 13 de março, para os americanos). E Donald mora na Rua das Flores nº 13. Seria Donald tão azarado por causa de tantos 13 em sua vida?




Com tantos autores e com tantas histórias já contadas, era mesmo de se esperar controvérsias e contradições também quanto à data de nascimento do nosso querido pato. Há quadrinhos que mostram que ele nasceu no mesmo dia da estreia de seu primeiro cartoon — em 9 de julho, portanto —, como na HQ publicada no gibi PATO DONALD #2372 (jul/09).

Já Don Rosa, que desenhou os patos numa Patópolis das décadas de 1950 e 60, respeitando a cronologia deixada por Carl Barks, fez umas contas e determinou que Donald nascera em 1920. Bem, acontece que o dia 13 de março não caiu numa sexta-feira naquele ano!




Uma versão clássica para o nascimento de Donald, lançada por ocasião de seu cinquentenário de criação, foi contada por Marco Rota: numa bela noite, no meio da estrada, a Vovó Donalda e o Tio Patinhas encontram um patinho ainda amarelo que acabara de sair do ovo. A paixão da vovó por ele é imediata, e então leva-o para criar. A trama não demonstra a relação de parentesco que haveria entre Donalda e Patinhas. Para quem não sabe, em algumas HQs europeias mais antigas, Patinhas é irmão de Donalda (ver PATO DONALD ESPECIAL, 1984. Acima, pintura de Carl Barks.)

Classicamente, digamos, os quadrinhos mostram que Donald foi, de fato, criado pela Vovó Donalda. É quase uma unanimidade. Até as HQs produzidas atualmente na Itália, mostrando um Donald garotinho (Paperino Paperoto), são ambientadas no sítio. Mas existem HQs brasileiras mostrando um Donald ainda menino vivendo em Patópolis. E falando nisso... o que teria acontecido com a sua mãe, Hortência? Bem, isso veremos em outro post, onde teremos surpresas...




No quadrinho acima, vemos o pato adolescente na década de 1930 dando trabalho aos Metralhas na fantástica A História de Patópolis, capítulo O Poderoso Metralhão, escrito por Ivan Saidenberg e desenhado por Irineu Soares Rodrigues — em MICKEY #361 (1982).

Já Don Rosa nunca mostrou detalhes de sua infância, se ele foi criado pela mãe ou avó, por exemplo. Mas deixou um quadrinho histórico e inesquecível, presente na Saga: o famoso chute no traseiro do Tio Patinhas.




Ficou chocado com a falta de respeito do pirralho? Não precisa: teve revide algumas páginas adiante (vide capítulos 11 e 12 da Saga do Tio Patinhas, por Don Rosa.)



Das mãos de Alfred Taliaferro, Donald ganhou seus sobrinhos nos jornais, Huguinho, Zezinho e Luisinho, em 1937. Começava assim uma nova era, com desenhos animados e quadrinhos com temas familiares. Antes, o pato sempre dividia suas histórias com a turma do Mickey, sendo comum contracenar com Bafo-de-Onça, algo que hoje nos pareceria estranho.



A velha piada: por que o pato não usa calças, mas quando sai do banho se enrola numa toalha?


Foi Barks quem mostrou o Donald aventureiro, em HQs memoráveis como De Volta a Quadradópolis, O Xerife do Vale Balaço, O Felizardo do Polo Norte, dentre tantas outras. Depois, o Homem dos Patos preferiu unir a família, incluindo Donald nas aventuras do tio muquirana. Aliás, somente o gosto pela aventura é que pode explicar o porquê do Donald aceitar, numa boa, míseros 30 centavos por hora para se embrenhar em lugares inóspitos e perigosos, em fantásticas buscas por tesouros!

Na verdade, cada país que o retrata carrega-lhe um pouco com tintas locais. Podem ser diferenças mais ou menos sutis. Mas sua marca registrada está sempre lá: o pavio curto. Para sobreviver, vários empregos e várias profissões: repórter do jornal A Patada, empregado de fábrica de margarina, carteiro, cozinheiro, vidraceiro, ator, pintor, vendedor... e polidor das moedas de seu tio, quando nada mais lhe resta!

E foi pelas mãos dos italianos, que tanto amam quadrinhos Disney, que Donald encontrou sua eventual redenção. Foi na Itália que nasceu seu alterego, o Superpato. Cultuado tanto lá como aqui, o super-herói surgirá num post só dele em breve.

No Brasil, é difícil precisar quando Donald foi publicado pela primeira vez. Mas no site
Esquiloscans, no artigo Arqueopatologia, podemos encontrar muitas informações sobre os primórdios dos quadrinhos Disney por aqui, muito antes da Abril ou das SELEÇÕES COLORIDAS da Ebal.


Nome: Pato Donald
1ª aparição no Brasil: imprecisa
Pai: Patoso Patus
Mãe: Hortência MacPatinhas
Avós paternos: Tomás Reco e Donalda Patus
Avós maternos: Fergus MacPatinhas e Donilda O'Pata
Irmã: Dumbela
Nome em inglês: Donald Duck


Fontes: Mickey and the Gang (David Gerstein, Gemstone, 2005), D23,
The Official Encyclopedia Disney (Dave Smith, Disney Editions, 2006), The Encyclopedia of Disney Animated Shorts, IMDB, Inducks, acervo de vídeos e revistas do Planeta Gibi

8 comentários:

Anônimo,  7 de agosto de 2009 17:30  

Na minha opinião, o Donald é o personagem de história em quadrinhos mais completo que existe. Não há nenhum outro, mesmo "humano" com o qual consigamos nos identificar tanto. Trata-se sem dúvida de uma criação genial de Disney.

Sávio Christi 12 de outubro de 2009 17:49  

1) O Tio Patinhas nunca foi parente da Vovó Donalda (conforme eu postei falando sobre no artigo do Zeca Pato).

2) Por que todo mundo sempre faz a pergunta da toalha do Donald? É claro que ele precisa secar suas penas; além de dar bom exemplo aos leitores; não é mesmo? Também já indagaram como ele teria sobrinhos se não tem irmãos; mas afinal: algum desenhista já chegou a falar que ele nunca teve irmãos?

3) Já vi o sobrenome do Tio Patinhas ser escrito como MacPatinhas, Mac Patinhas, McPatinhas e Mc Patinhas só não sei qual é a grafia correta; o que me lembra que não sei o porquê; mas o Tio Patinhas às vezes é chamado por aqui de Patinhas Mac Pato / MacPato / Mc Pato / McPato; o que também é só mesmo um detalhe...

Sávio Christi 12 de outubro de 2009 17:56  

E aqui vai uma curiosidade interessante: o nome do Zezinho (Dewey) deveria ser traduzido como Dieguinho; mas o nome Diego não era comum aqui no Brasil; daí puseram como Zezinho (assim como no México, ele se chama Paco e não Hugo). O que me faz lembrar também que; a Dumbella já foi chamada por aqui de Dumbela e também de Della.

Mas algo que não tem a ver com a matéria; porém quero ressaltar mesmo assim é: acho que o nome da Margarida (Deisy; que em bom português, também pode ser Deise) deveria ficar igual ou senão aportuguesado (como em espanhol em que ela é Deisy mesma); para combinar com a inicial do Donald; assim como o nome da Minnie (ou Minie) também começa com a letra do Mickey.

PLANETA GIBI 12 de outubro de 2009 20:48  

Tio Patinhas nunca foi parente da Vovó Donalda, Sávio? Hmmm... aguarde o capítulo sobre Vovó Donalda, que publicaremos um dia desses...

Margarida é simplesmente a tradução literal de seu nome em inglês, Daisy.

Tio Bin 23 de fevereiro de 2012 03:05  

Alguém Sabe Quais Foram Os 13 Desenhos Do Donald Que Concorreram Ao Oscar?

Portal HQ BRASIL - Dhannyel 23 de fevereiro de 2012 12:18  

Grande parte de nossas informações são tiradas do seu site, mas é claro, com os créditos. O Que acharia de uma parceri? Veja nosso site:
http://www.portalhqbrasil.com/

Andreyl. 23 de fevereiro de 2012 12:26  

Grande post, e queria sugeri que vcs fizessem um post sobre a origem e a vida do Donald feito pelos italiano, como o que eu fiz lá no QD: http://andrey-quadrinhosdisney.blogspot.com/2012/01/pato-donald-made-in-italia.html

Lucrécio 9 de março de 2012 03:40  

A vida italiana do Donald é a mesma coisa, só que ele tem que dividir o tempo dele entre Superpato, Double Duck e Agente Qua Qua 7 (que poderia ter um nome bem melhor como, por exemplo, Zero Zero Quac). Mas já que, no James Bond, os dois zeros na frente do 7 significam que ele tem licença para matar, não quiseram dar essa licença para um pato um tanto temperamental!

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